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A retomada da SailStation

Faz muitos anos atŕás, a exatamente 22 anos tive minha primeira experiência abordo de um veleiro Dingue, na represa Guarapiranga em SP, desde então minha paixão pelo mar só aumentou mas principalmente minha paixão pela vela. Aos 12 anos encontrei a fotografia, e a oportunidade de me dedicar a registrar momentos em regatas os quais eu julgava na época tão importantes para a divulgação do esporte e da prática da Vela no Brasil. De lá pra cá passei por uma faculdade de engenharia naval a qual não concluí e minha vida tem rodado de maneira significativa em torno de uma comunidade náutica que no Brasil, depois de 500 anos que Cabral chegou ainda está engatinhando.

Decidi retomar o meu site chamado SailStation que ná epoca tinha a pretensão de juntar tudo que fosse relacionado a vela em um único lugar. Desencontros e muitas decepções depois ele foi desativado por conta da falta de estrutura em manter um site e todo o sistema de informação com análises de regatas, notícias, banco de imagens que foi criado na época. Anos se passaram até que a vela voltasse a estar na mídia novamente, porém desta vez na forma de vídeos e de grupos de whatsapp. Um dos quais hoje em dia faço parte.

A vela, como prática esportiva, ao contrário do que muitos pensam, com o passar dos anos tem perdido adeptos. Não por falta de capacidade técnica, afinal de contas o Brasil detêm a maior quantidade de medalhas neste esporte. Foi a falta de recurso e principalmente o objetivo financeiro por trás da vela que se criou ainda mais em um pais que mal tem infraestrutura náutica que acabou por degringolar o pouco que restava de uma industria naval.

Para falarmos de vela no Brasil, precisamos falar de várias coisas, todas muito importantes para entender a conjuntura que vive o tal "estilo de vida" do velejador. Mas acredito que a principal seja a questão da industria.

Infelizmente ao longo dos anos, e com o advento do YouTube, vários velejadores, alguns experientes e outros nem tanto, vem mostrando as suas vidas a bordo de seus barcos. Com isto se criou a falsa impressão de que a vela e a náutica estão em alta e "de vento em popa". Porém um pouco de raciocínio e algo de história política do Brasil bastam para percebermos que na verdade o que estamos vivendo é uma deturpação dos meios tradicionais de promoção da Vela e do esporte.

Conto tudo isto, pois como disse anteriormente faz quase 22 anos que conheço o esporte, trabalhei 13 anos como fotógrafo náutico e assessor de comunicação, estive presente em eventos internacionais, olímpicos e regatas volta ao mundo. O esporte como prática é uma coisa, o estilo de vida como cruzeiro é outra completamente diferente.

Hoje em dia vemos pessoas oferecendo passeios a bordo em day-charters vendendo a "experiência" de viver um dia a bordo, criando a falsa impressão de que estes tantos serão algum dia velejadores da comunidade de marinheiros que temos no Brasil. Porém isso é uma grande ilusão. Pego o exemplo de quem alguma vez correu em um Kart de corrida e nem por isso se tornou piloto, ou até mesmo os passageiros que vão para o espaço em empresas privadas de foguetes espaciais e nem por isso se tornam astronautas. O Caminho, o esforço e a dedicassão necessária para se chegar a este patamar não são menores, e igualmente comparáveis a de se tornar um astronauta. O conhecimento das práticas envolvidas na vela, as tecnologias têxteis, estruturais, de hidráulica, elétrica e principalmente a dinâmica social do meio da vela é muito complexo. Um esporte trazido ao Brasil pelos europeus e que foi desenvolvido pelas clases mais ricas não deve ter muitas coisa de democrática ou de acessível não é mesmo?

Porque estou colocando tudo isto logo no primeiro post da retomada deste site?

As coisas não anda bem no Brasil desde que Cabral chegou por estas terras, e vamos nos lembrar que ele chegou pelo mar. De lá prá cá algumas coisas cresceram porém não proporcionalmente e muito menos qualitativamente no meio náutico. Eu acredito que como um idealista e principalmente alguém que acredita em conhecimento livre, que a Náutica e o ser Velejador tem muito mais a ver com a preservação de um meio/estilo de vida socioambiental do que com tirar fotos para colocar no instagram e impressionar os amigos da escola para conseguir mais seguidores.

Desde o meu início de carreira na náutica percebi que no Brasil tem destaque quem tem dinheiro, pouca ou nenhuma atenção tem as comunidades caiçaras e tradicionais de todo o Brasil. Com exceção de alguma ilha favorecida por royalties do petróleo são poucos os lugares que a Vela como meio de vida de tradição é preservada.

Infelizmente o jornalismo náutico no Brasil cobre o que tem patrocinador ou aqueles que tem um destaque midiático por terem atletas de alto rendimento, e isso sempre foi o calcanhar de aquiles para o desenvolvimento da industria náutica nacional. A final de contas o maior fabricante de barcos do Brasil não fica nem no Sul nem no Sudeste. Fica no Ceará. Estas Jangadas são feitas artesanalmente até hoje por comunidades de pescadores que preservam o estilo de vida aprendido com seus avós e bisavós. Porém estes nunca tiveram destaque na grande mídia nem muito menos nos eventos internacionais.

Por outro lado a industria náutica tradicional conseguiu colocar um cavalo na copa de uma arvore e fez o feito impossível de criar um zilhão de classes de veleiros oceanicos diferentes todas elas com pouco ou nenhum sucesso, baixa competitividade justa ou poucos barcos. Quando há quantidade de barcos não há constância na fabricação surgindo clases com diferenças de peso de um barco para outro. Há uma exceção de algumas classes monotipo que ainda tem uma relevância regional em represas e regatas locais como o Dingue ou o Snipe (fabricado a duras penas pelo Lemão no Brasil) mas já são barco pequenos e de ótima entrada, porém inviabilizados pelos altos custos de peças, falta de insumos e material.

A vela como competição se reproduz nos espaços tradicionais de maneira efetiva e justa, ao contrário da pseu-vela que vivemos nas classes de Oceano nas quais barcos são feitos para quebrar regras de Rating e Handicap. Por outro lado as classes olímpicas e de alto rendimento one-design, cada vez são mais caras, menos acessíveis e elitistas, tirando um grande público jovem que poderia vir a se tornar velejador.

Ao longo de tantos anos trabalhando com cobertura náutica, estudando engenharia naval, construindo peças de barcos, velejando em regatas e passeando pelas águas do litoral brasileiro, fui conhecendo várias figuras que fazem a vela no Brasil acontecer. Algumas destas figuras são pseudo jornalistas, engenheiros, velejadores, outro são pessoas realmente dedicadas a comunidade e principalmente a manutenção e promoção da vela como estilo de vida socialmente responsável. É difícil apontar dedos e dizer quem é quem no final das contas não há vilões e não há heróis nesta história. Porém há sim pequenas formiguinhas que fazem o trabalho no dia a dia faça chuva ou faça sol. Já há outros que aproveitam para fazer a foto posada no final de semana sem agregar ou deixar nenhum legado achando que estão arrasando.

Pretendo ao longo dos dias, a bordo do veleiro amigo, ir dichavando este emaranhado de histórias, causos e mentiras que vem sendo contadas desde o tal "DESCOBRIMENTO" do Brasil que não foi descoberto porra nenhuma, foi simplesmente encontrado, explorado e usurpado, assim como a Vela Tradicional e assim como o povo Brasileiro.

Gostaria de poder promover o debate e encontros de amigos para resolver problemas reais, sobre comunidades reais, aqui e agora. Não pra amanhã, não na europa. Temos problemas ambientas com derramamento de óleo, caça ilegal de peixes e especies autoctonias marinhas, suicídio e ataques de baleias. Para piorar uma industria que até o Aço importa de fora, sem contar os materiais composites (que pagamos 65% de impostos sobre a importação da matéria prima) Para todos estes infinito de problemas existe um infinito maior ainda de soluções.

Se vocẽ gostar da ideia de ajudar e ou apoiar este trabalho, faça parte do debate, junte-se para trabalhar neste assunto. Colabore em construir um grupo e uma comunidade mais sustentável entorno da vela de Oceano e da Vela de Recreio

Marcos Méndez
21.jun.2021